Dentre
os inúmeros clichês utilizados pelo brasileiro, “Deus é brasileiro” é um que
certamente acabou ganhando ares de algo verdadeiro, como no caso de muitos
outros. O brasileiro tem certeza de que mora num país abençoado por Deus por
ser tropical e bonito por natureza, onde não ocorrem terremotos, tsunamis,
erupções vulcânicas e outros cataclismos. Tudo isso seria a prova de que esse é
o melhor lugar do mundo e que o Criador tem um apreço maior e preferência por
esta nação em relação às outras. A certeza é maior ainda ao afirmar que o povo
brasileiro é hospitaleiro, o mais legal, mais simpático e o mais amigável de
todos os povos. Mas... faz sentido afirmar que o Criador dos céus e da Terra tem
preferência por este ou aquele povo ou por este ou aquele lugar?
Pois
bem, a história das civilizações não mostra, em nenhum momento, um povo
proveniente de regiões tropicais e abundantes em recursos naturais que tenha
atingido níveis de desenvolvimento formidáveis. As praias, fonte natural e
gratuita de diversão, o clima excelente, a facilidade em encontrar comida e a
ausência de guerras e de situações que demandem sacrifício em prol de algum bem
maior; todos esses fatores estão ausentes na história das grandes civilizações
e nações que passaram ou que existem hoje no mundo. A grandiosidade e o caráter
são forjados nas dificuldades, na falta, na fome, na guerra, na inquietação e
nas incertezas. Já a abundância não conquistada e não merecida tem como frutos
a preguiça, a acomodação e a procrastinação. É um padrão que se repete nos mais
diferentes níveis, desde uma família até uma nação inteira. Quem não conhece
casos de fortunas de famílias que se dissipam em duas gerações? Pois os
esforços daqueles que a construíram são muito maiores do que os que a herdaram.
E o que falar das civilizações que, atingindo seu apogeu, acabam por se
acomodar com suas riquezas e são então conquistadas?
Quem
nasce no Brasil e nele vive precisa acordar do sonho lindo de bebê em berço
esplêndido, e admitir que, a fim de atingir uma maturidade intelectual e DE
CARÁTER, será necessário esforço, persistência, perseverança e paciência; que o
caminho para esse objetivo não será fácil como ir à praia, e que a companhia,
muitas vezes, será somente a dos próprios demônios e anjos interiores, e de
Deus, se assim a pessoa acreditar. E todo esse esforço terá de ser maior do que
o de alguém que tenha nascido na Noruega, na Inglaterra, no Canadá, enfim, em
qualquer lugar onde não haja esta maravilha natural que temos.
Se
nosso esforço tem que ser maior, não há porque dizer que somos abençoados,
muito pelo contrário. A MENTIRA do “Deus é brasileiro” nos define como povo e
nos faz únicos em uma maneira indesejada. E essa característica geral do povo é
um reflexo realimentado do modo de ser da maioria da população: nosso povo só é
assim porque, em geral, pessoas são assim; mas a maioria das pessoas acaba por
ser assim porque o povo, no geral, é assim. É um CICLO VICIOSO difícil de ser
quebrado, onde cada brasileiro que nasce é submetido a uma cultura da vantagem
e do tropicalismo bon vivant e, ao aceitá-la como sua própria realidade
inexorável, contribui para cristalizá-la ainda mais, e assim por diante.
A
certeza de que somos naturalmente abençoados e que não precisamos nos esforçar
produziu em nossa história recente os resultados mais esdrúxulos e inconcebíveis,
basta ver os últimos presidentes eleitos! No Brasil faz-se apologia à
ignorância, à cachaça e ao futebol, à preguiça e à ignorância sobre o trabalho
e a cultura.
Essa
“mentira boba” se incorporou de tal forma ao imaginário popular que se tornou
um impeditivo ao desenvolvimento intelectual de nosso povo. A certeza da ajuda
divina à disposição de todos, de que tudo vai dar certo de alguma maneira, e
até mesmo o jeitinho brasileiro, são todas muletas onde a pessoa se apóia para
não ter que fazer as coisas como elas precisam ser feitas, para não ter que se
desenvolver intelectualmente, e para não se sentir mal com as duas afirmações
anteriores.
Texto
de Flávio Quintela, adaptado por Alexsander Joaquim de Oliveira.
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