segunda-feira, 8 de abril de 2019

DEUS É BRASILEIRO??


     Dentre os inúmeros clichês utilizados pelo brasileiro, “Deus é brasileiro” é um que certamente acabou ganhando ares de algo verdadeiro, como no caso de muitos outros. O brasileiro tem certeza de que mora num país abençoado por Deus por ser tropical e bonito por natureza, onde não ocorrem terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas e outros cataclismos. Tudo isso seria a prova de que esse é o melhor lugar do mundo e que o Criador tem um apreço maior e preferência por esta nação em relação às outras. A certeza é maior ainda ao afirmar que o povo brasileiro é hospitaleiro, o mais legal, mais simpático e o mais amigável de todos os povos. Mas... faz sentido afirmar que o Criador dos céus e da Terra tem preferência por este ou aquele povo ou por este ou aquele lugar?  
     Pois bem, a história das civilizações não mostra, em nenhum momento, um povo proveniente de regiões tropicais e abundantes em recursos naturais que tenha atingido níveis de desenvolvimento formidáveis. As praias, fonte natural e gratuita de diversão, o clima excelente, a facilidade em encontrar comida e a ausência de guerras e de situações que demandem sacrifício em prol de algum bem maior; todos esses fatores estão ausentes na história das grandes civilizações e nações que passaram ou que existem hoje no mundo. A grandiosidade e o caráter são forjados nas dificuldades, na falta, na fome, na guerra, na inquietação e nas incertezas. Já a abundância não conquistada e não merecida tem como frutos a preguiça, a acomodação e a procrastinação. É um padrão que se repete nos mais diferentes níveis, desde uma família até uma nação inteira. Quem não conhece casos de fortunas de famílias que se dissipam em duas gerações? Pois os esforços daqueles que a construíram são muito maiores do que os que a herdaram. E o que falar das civilizações que, atingindo seu apogeu, acabam por se acomodar com suas riquezas e são então conquistadas?
     Quem nasce no Brasil e nele vive precisa acordar do sonho lindo de bebê em berço esplêndido, e admitir que, a fim de atingir uma maturidade intelectual e DE CARÁTER, será necessário esforço, persistência, perseverança e paciência; que o caminho para esse objetivo não será fácil como ir à praia, e que a companhia, muitas vezes, será somente a dos próprios demônios e anjos interiores, e de Deus, se assim a pessoa acreditar. E todo esse esforço terá de ser maior do que o de alguém que tenha nascido na Noruega, na Inglaterra, no Canadá, enfim, em qualquer lugar onde não haja esta maravilha natural que temos.
      Se nosso esforço tem que ser maior, não há porque dizer que somos abençoados, muito pelo contrário. A MENTIRA do “Deus é brasileiro” nos define como povo e nos faz únicos em uma maneira indesejada. E essa característica geral do povo é um reflexo realimentado do modo de ser da maioria da população: nosso povo só é assim porque, em geral, pessoas são assim; mas a maioria das pessoas acaba por ser assim porque o povo, no geral, é assim. É um CICLO VICIOSO difícil de ser quebrado, onde cada brasileiro que nasce é submetido a uma cultura da vantagem e do tropicalismo bon vivant e, ao aceitá-la como sua própria realidade inexorável, contribui para cristalizá-la ainda mais, e assim por diante.
      A certeza de que somos naturalmente abençoados e que não precisamos nos esforçar produziu em nossa história recente os resultados mais esdrúxulos e inconcebíveis, basta ver os últimos presidentes eleitos! No Brasil faz-se apologia à ignorância, à cachaça e ao futebol, à preguiça e à ignorância sobre o trabalho e a cultura.
      Essa “mentira boba” se incorporou de tal forma ao imaginário popular que se tornou um impeditivo ao desenvolvimento intelectual de nosso povo. A certeza da ajuda divina à disposição de todos, de que tudo vai dar certo de alguma maneira, e até mesmo o jeitinho brasileiro, são todas muletas onde a pessoa se apóia para não ter que fazer as coisas como elas precisam ser feitas, para não ter que se desenvolver intelectualmente, e para não se sentir mal com as duas afirmações anteriores.


Texto de Flávio Quintela, adaptado por Alexsander Joaquim de Oliveira.

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